Síntese de evidências — Biblioteca UpToDate · 15/05/2026 · Dr. Renato Abritta Zacarias — CRM-SP 228408
A abstinência da cocaína não é emergência médica clássica. Diferente do álcool e dos opioides, não cursa com convulsões, delirium ou instabilidade autonômica grave. A síndrome é predominantemente psíquica e funcional — sinais físicos são menores e raramente requerem tratamento.
Fases e cronologia
Fase 1 — "Crash" (0 a 72 horas)
Período de sintomas intensos após a cessação do uso pesado:
Retardo psicomotor intenso
Depressão grave — ideação suicida possível
Fadiga extrema e hipersonia (sono de rebote)
Anedonia intensa; fissura inicialmente baixa, em ascensão
Fase 2 — Withdrawal agudo (3 a 14 dias; até 4 semanas)
Distúrbios do sono: insônia inicial seguida de hipersonia; sonhos vívidos/perturbadores
Aumento do apetite; dificuldade de concentração; cefaleia
Sinais físicos menores: dor musculoesquelética, tremor, calafrios, bradicardia
Alerta cardiovascular: a primeira semana de abstinência de estimulantes foi associada a isquemia miocárdica, possivelmente por vasoespasmo coronariano.
Fase 3 — Extinção / abstinência prolongada (semanas a meses)
Comprometimento cognitivo residual (atenção, memória de trabalho, função executiva) — reversível com meses a um ano de abstinência
Insônia que pode persistir por meses ou anos
Fissura intermitente desencadeada por gatilhos condicionados
Craving residual possível; cognição se recupera progressivamente
Dois períodos críticos: o crash (48–72h) concentra o maior risco psiquiátrico (depressão grave, suicídio); os dias 3–14 concentram o pico de craving e o maior risco de recaída.
Manejo clínico
Farmacológico
Não existe medicamento com eficácia robusta para a desintoxicação aguda da cocaína. O UpToDate não recomenda protocolo farmacológico de detoxificação. Topiramato e anfetamina de liberação prolongada destinam-se à manutenção da abstinência, não ao detox imediato.
Insônia
Benzodiazepínicos contraindicados (risco de abuso e overdose). Alternativas, com cautela e evidência limitada: trazodona, mirtazapina, gabapentina, agonistas de melatonina.
Pilar do tratamento
Apenas as intervenções psicossociais demonstraram eficácia: contingency management, TCC e entrevista motivacional.
Relevância para o contexto CAPS
A maioria dos casos é manejável ambulatorialmente. O modelo de programa intensivo — grupos diários, counseling e seguimento frequente — corresponde exatamente ao que o CAPS-AD oferece. A síndrome resolve em 1–2 semanas sem tratamento na maior parte dos usuários.
Indicações de encaminhamento para nível mais intensivo / internação
Ideação suicida com plano ou sem fatores protetores
Psicose induzida por cocaína (paranoia, alucinações persistentes)
Isquemia miocárdica na primeira semana de abstinência
Falha múltipla em tratamentos ambulatoriais
Comorbidade grave com álcool, opioides ou outras substâncias
Ausência total de suporte social
Monitoramento no CAPS
Avaliação do risco suicida nas primeiras 2–3 semanas
Rastreio de isquemia miocárdica na primeira semana, se houver sintomas cardiovasculares
Atenção à comorbidade depressiva (alta prevalência)
Insônia: abordagem não farmacológica preferencial
Risco de overdose por contaminação com fentanil — orientar sobre naloxona
Pontos-chave para a prática
A abstinência da cocaína não é emergência médica clássica — difere do álcool e opioides.
O crash (48–72h) é o período de maior risco psiquiátrico.
O pico de craving ocorre entre os dias 3–14 — maior risco de recaída.
Não há medicamento de eficácia robusta para a detoxificação aguda.
A intervenção psicossocial é o pilar do tratamento.
Insônia pode persistir por meses — não usar benzodiazepínicos.
O comprometimento cognitivo é reversível com a abstinência.
Rastrear risco de contaminação por fentanil e orientar sobre naloxona.
Fontes
Cocaine use disorder: Epidemiology, clinical features, and diagnosis — D. A. Gorelick (UpToDate v45.0, dez/2025)
Stimulant use disorder: Treatment overview — K. Kampman (UpToDate v43.0, mar/2026)
Stimulant use disorder: Psychosocial management — K. Kampman (UpToDate v27.0, out/2025)
Insomnia in patients with a substance use disorder — J. T. Arnedt (UpToDate v28.0, jan/2026)